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19/04/2013

A comunicação silenciosa do contexto

Essa corrente de pensamento de origem chinesa propõe que o ambiente seja dotado de vibrações energéticas e que a disposição adequada dos objetos, móveis e construções seja capaz de conservar as influências energéticas positivas de um lugar e redirecionar as negativas, de forma a beneficiar os usuários do espaço.

Assim, os adeptos do Feng Shui montam e organizam os recintos (como a casa e o trabalho) de maneira a favorecer seu fluxo energético. No entanto, deixando de lado a crença de cada um, podemos imaginar que os primeiros estudos de uma técnica tão antiga quanto essa, que já existe há mais de 4000 anos, tenham surgido em razão das sensações provocadas naturalmente por determinados ambientes.

Nossa sensação em um lugar sujo e desorganizado é muito diferente da que temos em um lugar limpo e organizado. Um espaço asseado impõe respeito e disciplina, enquanto a desorganização favorece um comportamento desrespeitoso.

Quando as coisas estão fora do lugar ou quando é perceptível que algumas regras foram quebradas, parece que as pessoas sentem-se menos coibidas a cometer pequenas infrações, e o seu comportamento pode ser afetado. Foi o que mostrou o estudo publicado na Science em 2008, que mediu a quantidade de lixo jogada em um espaço público sob duas condições: na primeira, as paredes do local estavam limpas; enquanto na segunda, as paredes estavam pichadas. De forma surpreendente, os resultados mostraram um aumento de 36% no número de pessoas que jogaram lixo no chão no segundo contexto (paredes pichadas) em relação ao primeiro (Keizer et al., 2008).

Para avaliar os efeitos do ambiente no trabalho, um estudo procurou mostrar como a decoração desse local pode interferir na satisfação dos funcionários. A pesquisa envolveu mais de dois mil trabalhadores de escritório e mostrou que quanto mais controle eles tinham sobre seu espaço, mais felizes e motivados eles ficavam em relação ao seu emprego (Knight e Haslam, 2010a). Outro estudo mostrou um aumento de 17% na produtividade das pessoas que trabalhavam em um ambiente enriquecido (decorado com plantas e fotos) e um aumento de 32% quando elas tinham liberdade para personalizar o lugar em que trabalhavam, de forma a imprimir sua própria identidade no local (Knight e Haslam, 2010b). Isso demonstra que além da decoração e organização, atribuir características pessoais às coisas faz com que elas se tornem mais valorosas, o que pode ser visto em produtos também.

As características sensoriais e a qualidade de um produto são, obviamente, os principais fatores envolvidos na sua apreciação, no entanto, qual será a contribuição dos sinais periféricos associados a ele, como a marca? Ela poderia ter alguma influência na avaliação de um produto?

Para responder a essa questão, um estudo avaliou a diferença de percepção entre quatro marcas de refrigerante de cola. Na primeira etapa, os indivíduos faziam um teste cego, isto é, provavam as bebidas sem ter conhecimento de qual marca representavam, e davam notas de 1 a 5 (sendo 1 a menor – “muito sem graça”, e 5 a maior – “muito bom”). Na segunda etapa, as mesmas bebidas eram avaliadas, mas agora com suas marcas visíveis, e nesse cenário havia um aumento da nota atribuída à bebida da marca preferida pelos participantes, demonstrando a influência dessa característica em suas escolhas.

De modo geral nada ocorre de forma isolada, existe sempre um lugar e um contexto; o que pode, em algumas situações, influenciar nossa percepção. E isso me faz pensar... Será que a associação de valores sociais positivos a marcas famosas poderia favorecer o surgimento de novas perspectivas em relação a velhos problemas?

 

 

Referências

Designing your own workspace improves health, happiness and productivity. Science Daily - http://www.sciencedaily.com/releases/2010/09/100907104035.htm. 8-set-2010;

Keizer K, Lindenberg S, Steg L. The spreading of disorder. Science. 2008;322:1681-1685;

Knight C, Haslam SA. Your Place or Mine? Organizational Identification and Comfort as Mediators of Relationships Between the Managerial Control of Workspace and Employees' Satisfaction and Well-being. British Journal of Management. 2010a;21(3):717;

Knight C, Haslam SA. The relative merits of lean, enriched, and empowered offices: An experimental examination of the impact of workspace management strategies on well-being and productivity. Journal of Experimental Psychology: Applied. 2010b;16(2):158;

Sheen MR, Drayton JL. Influence of brand label on sensory perception. P 89-99

Wikipédia – Feng Shui – http://pt.wikipedia.org/wiki/Feng_shui.

Figura: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Feng_shui.svg?uselang=pt-br