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Publicado em:

29/04/2013

A Disputa Pela Nossa Atenção

Imagine a seguinte situação: você está lendo um livro interessante em uma biblioteca. Ao dar uma breve olhada ao redor, observa outras pessoas igualmente entretidas com a leitura. Isso não desvia sua atenção, e você segue lendo normalmente. Agora, imagine que, ao olhar novamente, vê alguém muito assustado. Independentemente de qual seria sua reação, é certo que você teria dificuldade em retomar a leitura com o mesmo foco inicial. Pelo menos até compreender o que está acontecendo ou se assegurar de que isso não terá impacto em você.

Isso acontece porque parte dos recursos mentais que estavam sendo usados para ler seu livro precisariam ser desviados para processar essa nova e carregada informação emocional — a pessoa assustada. Uma revisão publicada em 2009 trouxe exemplos empíricos de como as emoções interferem em nossas atividades cotidianas, um tema que ainda é pouco explorado. Os recursos utilizados para processar informações do ambiente — como a seleção perceptual, a resolução de conflitos e a manutenção de contexto — dependem de uma função chamada controle executivo.

De acordo com o estudo, esses recursos são limitados e devem ser compartilhados entre diferentes atividades. Quando isso ocorre, a tarefa principal geralmente sofre prejuízo. De fato, uma das pesquisas citadas na revisão mostrou queda no desempenho de pessoas que realizavam tarefas de atenção ao serem expostas a imagens com alto teor emocional (como rostos expressando medo ou alegria), em comparação a imagens com baixo conteúdo emocional (como um rosto sem expressão).

No entanto, nem sempre um estímulo emocional prejudica nossas atividades. Pelo contrário, se ele for relevante para a tarefa, pode até melhorar nosso desempenho, ao mobilizar recursos adicionais. Usando o exemplo da leitura na biblioteca, se o texto trouxesse uma advertência como “As próximas informações serão essenciais para a compreensão dos capítulos seguintes!”, certamente você redobraria sua atenção naquele trecho.

Em conclusão, informações sensoriais com valor afetivo sempre recebem prioridade. Por exemplo, itens com apelo visual, como a imagem de uma face expressando medo, atraem nossa atenção instantaneamente. Esse mecanismo faz parte da interação dinâmica entre o indivíduo e o ambiente. Embora a maioria dos estudos seja focada em estímulos de impacto aversivo, essa ideia pode — e deve — ser ampliada para incluir estímulos positivos e até mesmo neutros, desde que cheguem à nossa percepção com forte intensidade sensorial.

E por falar em percepção, será que realmente percebemos tudo o que está ao nosso redor? Vamos discutir esse tema em breve!


Referências bibliográficas

Blair KS et al. Modulation of emotion by cognition and cognition by emotion. Neuroimage. 2007;35(1):430-40;

Pessoa L. How do emotion and motivation direct executive control? Trends in Cognitive Sciences. 2009;13(4):160-6.

Figura: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Gol_stavkirke,_masker.jpg