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27/03/2013

Campos de reprodução vs. Campos de criação

No post anterior, introduzimos o tema de cocriação interativa. Agora, para aprofundarmos mais nesse assunto, precisamos perceber as diferenças entre campos de reprodução e campos de criação.

Em geral vivemos em campos de reprodução, ou seja, ambientes configurados por caminhos feitos para aprisionar e direcionar fluxos, como se fossem sulcos para fazer escorrer por eles as coisas que ainda virão. Nesses campos, dificilmente surge o novo porque as estradas para o futuro já foram pavimentadas por alguém (por algum centro constituído) antes da interação. Em geral quando percorremos essas trilhas repetimos passado.

Nossas instituições de todos os “setores” (empresariais, governamentais e sociais) foram estruturadas para a reprodução, não para a inovação. Elas foram desenhadas como campos na rede social para condicionar fluxos, obrigando-os a passar pelos mesmos caminhos.

Foi por causa disso que a ideia de inovação ganhou tanta notoriedade, sobretudo nos meios corporativos, que são ambientes de aprisionamento e condicionamento de fluxos. As ideias novas têm mesmo dificuldade de surgir ou de ser identificadas como tais nesses meios, não porque lá não existam pessoas criativas (todas as pessoas são criativas) e sim porque essas pessoas estão imersas em ambientes que não são criativos (posto que foram desenhados para a reprodução e não para a criação).

Mais recentemente estão surgindo práticas de interactive co-creation como open distributed innovation. Ela é open, ou seja, a entrada e os temas são abertos (qualquer pessoa pode entrar para cocriar e para propor temas inesperados). Seu desfecho também é aberto (não há um resultado esperado a ser necessariamente alcançado). Seu processo é free (não há uma metodologia ou um conjunto de passos que as pessoas devam seguir para atingir um objetivo prefixado: somente livre-conversação). Sua estrutura é distribuída (em um campo de cocriação todos interagem em igualdade de condições; não há dirigentes, professores, palestrantes, coordenadores ou facilitadores: todos os cocriadores são netweavers). E sua dinâmica é interativa (a cocriação não tem procedimentos participativos, como a reunião coordenada, a votação e a construção administrada de consenso. Ninguém precisa acatar decisões. Todos são livres para interagir como quiserem).

Mas qual é o objetivo de tudo isso? Ora, o nome já está dizendo. Tal esforço visa a conformar um campo de criação. Na verdade trata-se de criar um abrigo, um refúgio para que as pessoas possam – ainda que durante breves intervalos de tempo – escapar dos campos de reprodução (da Matrix).

Para ensaiar a interactive co-creation devemos gerar um campo de co-creation – um campo de criação aberto, permanente, emergente e de interação de pessoas que criam ideias a partir da polinização mútua gerando inovação. Como percebeu McLuhan (1974), a inovação tem a ver com ambiente, não com tecnologia; e, poderíamos acrescentar, nem com metodologia (que também é uma tecnologia) (1). Esse ambiente pode ser um lugar físico e/ou virtual fértil para que as pessoas sintam-se livres para co-criarem e a inovação emerja no campo. Resumindo, Cocriação (co-creation) é o processo pelo qual várias pessoas criam (ou desenvolvem) ideias conjuntamente. Como nenhuma pessoa concebe uma idéia a partir do zero, toda ideia é um clone de outras ideias (um clone sempre diferente porque sujeito a um processo variacional), toda criação é uma co-criação na sua essência. Segundo o conceito de cocriação interativa (ou i-based co-creation como open distributed innovation) todas as ideias são frutos da interação (envolvendo cloning ou o swarming, por exemplo, que são fenômenos da interação). A cocriação interativa (ou em rede) é imprevisível, intermitente, aberta, distribuída e, obviamente, interativa (quer dizer – o que já não é tão óbvio – não-participativa).

O sentido mais profundo dessa elaboração talvez possa ser resumido na frase seguinte:

“Em uma espécie de invocação de entidades ainda desconhecidas e que não controlamos, ensaiamos na i-based co-creation um novo modo de convivência capaz de dar vida ao simbionte social que prefiguramos quando nos abrimos à interação com o outro-imprevisível” (2). 

Depois de compreendermos melhor as características e conceitos dos campos de reprodução e criação fica aqui o desejo de conhecer mais na prática como esses campos se configuram na nossa realidade. Existem exemplos práticas de aplicação dos campos de criação? E como podemos nos inspirar nos campos de criação, que são campos de interação em rede, para mudarmos os campos de reprodução característicos de ambientes mais hierarquizados? É possível?

 

Adaptado de FRANCO Augusto (2012) Cocriação Reinventando o conceito.

 

Referências:

(1) Cf. McLuhan em uma palestra pública – intitulada “Viver à velocidade da luz” – em 25 de fevereiro de 1974, na Universidade do Sul da Flórida, em Tampa, explicando o que entendia por seu famoso aforismo “o meio é a mensagem”: “Significa um ambiente de serviços criado por uma inovação, e o ambiente de serviços é o que muda as pessoas. É o ambiente que muda as pessoas, e não a tecnologia. (Mc Luhan por McLuhan, de David Staines e Stephanie McLuhan (2003). São Paulo: Ediouro, 2005. Título original: Understanding me: lectures and interviews. http://trick.ly/4ra

(2) FRANCO, Augusto (2011). Fluzz: vida humana e convivência social nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio. São Paulo: Escola-de-Redes, 2011:

http://www.slideshare.net/augustodefranco/fluzz-book-ebook