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06/06/2022

Paixão pelo Meio Ambiente move empreendedor da Periferia na Zona Sul de São Paulo

“O que você estará fazendo daqui a 30 anos para o meio ambiente?”

 

Foi graças a essa pergunta que, em 1992, aos 15 anos, Marcos Campos decidiu qual seria o seu caminho na vida.

 

Nascido na Zona Sul de São Paulo, próximo à represa Guarapiranga, desde a década de 1980 ele já reunia um grupo de amigos para limpar as margens da represa. Hoje, comanda a primeira microfranquia da Coletando, uma startup que oferece um sistema para gestão de resíduos e oferta ao morador e catador de rua dinheiro no cartão de crédito em 24 horas após a entrega do material no Ecoponto.

 

A empresa participou do primeiro ciclo do HousingPact, ao lado de outras 16 startups, e o sistema de microfranquias é resultado do 1º ciclo projeto piloto realizado ao lado da Firgun, startup de microcrédito.

 

Marcos assumiu a microfranquia no Jd. Ibirapuera (SP) em março de 2020, mas, antes mesmo de inaugurar oficialmente, foi pego pela pandemia, como tantos outros empresários.

 

Com resiliência, e acreditando no sonho que começou a ser trilhado há 20 anos, a inauguração oficial do ecoponto aconteceu em setembro. Em março de 2021, um ano depois de tudo começar, expandiu o negócio de um espaço de 60 metros quadrados, para um galpão de 230 mil metros quadrados. 

 

A visão do empreendedor da periferia mantém o legado do Programa HousingPact, que olha para a geração de renda local e aumento da reciclagem na região, contribuindo para a cadeia estendida da moradia e habitação social. Além disso, inspira quem sonha em empreender e contribuir com as mudanças no mundo.

 

Acompanhe os detalhes dessa jornada na entrevista.

 

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HousingPact: Como você chegou ao piloto do Programa HousingPact com a Coletando e como a proposta se conecta com o seu propósito de vida?

 

Tudo começou na minha família, ainda na infância. Na década de 1980 minha família passou bastante dificuldades. Nesse contexto, a gente foi aprendendo a cuidar do ambiente e reutilizar as coisas que a gente tinha. Por exemplo: eu sou o irmão caçula e minha mãe sempre comprava roupas para meu irmão mais velho, que depois ficavam para mim e, mais tarde, para meus amigos.

 

Mas, para resumir, o começo desse interesse pelo tema sustentabilidade tomou forma em 1992. Como membro da Associação Brasileira de SGI participei de uma apresentação no Rio + 20 Eco-92, no Maracanã, onde surgiu a Agenda 21. Na época, eu tinha 15 para 16 anos e fui lá para tocar com a banda fanfarra. Em certo momento do evento perguntaram: “o que vocês estarão fazendo daqui 30 anos para o meio ambiente?”.

 

Eu fiquei pensando naquilo. Moro na região do Guarapiranga, dos mananciais, e foi quando defini que tinha que proteger o nosso entorno. Foi assim que tudo começou. Em 2010, senti a necessidade de abrir um bloco de Carnaval de rua, que se chamou Bloco Ecocampus Folia. Desta forma, eu achei uma forma direta para falar com as pessoas sobre meio ambiente e sustentabilidade.

 

Em 2014, procurando algo para trabalhar com projetos de reciclagem, encontrei a Coletando. Na época, tentei contato, mas não obtive sucesso. Continuei tocando meu próprio projeto de sustentabilidade, comprando e vendendo resíduos.

 

Cinco anos depois, em 2019, um amigo da Associação Bloco do Beco, articulador local parceiro do HousingPact, me chamou para participar de uma apresentação de startups. Dentre elas, estava a Coletando. Notei que o projeto vinha bem de encontro ao que eu estava buscando.

 

 

Como foi o processo da montagem da microfranquia?

 

No início tivemos dificuldades em nos estabelecer porque logo quando a gente tomou a decisão de abrir, em março, entrou a pandemia. Mesmo assim, conseguimos trabalhar de portas fechadas.

 

Oficialmente, abrimos no início de setembro. Foi quando a gente começou a fazer uma coleta maior junto aos moradores. Estávamos aprendendo a mexer no sistema e fazer todas as tratativas financeiras junto aos clientes, mas algumas informações tecnológicas deram problema e não conseguíamos fazer a transação, o que atrapalhava o cliente de fazer o seu saque também. 

 

A Coletando foi atrás de uma nova tecnologia para melhorar. Foi quando criaram a própria plataforma e fizeram parceria com um banco para minimizar esses problemas com transferência. Com o cartão na mão, a comunicação ficou mais fácil e o processo sofreu uma melhora.

 

Ainda dentro da pandemia, tivemos dificuldades na logística. A gente tinha uma bicicleta elétrica, mas as pessoas estavam dentro de casa, gerando mais volume e por isso sentimos a necessidade de ampliar essa coleta. Foi quando trocamos a bicicleta pelo caminhão.

 

Depois de um ano atuando, conseguimos fazer esse upgrade e passamos a atuar em um raio de 5km. Também mudamos para um galpão maior, já que no espaço que estávamos já ocupávamos a calçada e a preocupação era incomodar os vizinhos. Conversando com o pessoal da Coletando, e assim, de um espaço inicial de 60 metros quadrados, hoje ocupamos 230 mil metros quadrados.

 

Isso permite que a gente armazene o material. Por exemplo, hoje o preço do papelão caiu bastante, então a gente consegue armazenar até que a oferta aumente para vendermos com valor mais agregado.

 

Com um crescimento tão rápido, você poderia dizer que a comunidade estava carente de ações desse tipo?

 

Criamos uma cultura que não existia antes. Eles não tinham o hábito de separar o resíduo para coleta, apenas deixar tudo na frente para que a prefeitura pegasse. A gente conseguiu criar essa cultura e, também, fazer a economia circular no próprio bairro.

 

Qual você nota que é o maior motivador nessa nova cultura: o estímulo financeiro ou a preservação do meio ambiente?

 

Tem pessoas que já reciclavam antes e continuam deixando tudo separado na frente de casa. Nesse caso, o cartão agregou ainda mais. Inclusive, tem clientes que só querem mesmo que seja feita a coleta, nem querem o pagamento no cartão. E tem outros, até mesmo por causa da pandemia, que utilizam o valor pago para levar alimento para dentro de casa. Ou seja, passaram a ter essa prática como uma forma de renda e, inclusive, estimulam a coleta dentre os conhecidos para agregar ainda mais. Assim, conseguimos levar uma economia para dentro do bairro.

 

Com um processo já tão cheio de evoluções, você sente que mais algum ponto pode ser aprimorado?

 

Falando ainda dessa parte da economia, hoje cada morador que recicla com a gente consegue gerar uma média de R$60 a R$ 70 no mês. Dentro do bairro, estamos gerando de R$ 4.000 a R$ 4.200 no mês. Isso significa que estamos conseguindo fazer circular esse valor agregado que não existia no reciclável. Mas, para melhorarmos a conscientização e fazermos o processo funcionar, é preciso que todos estejam envolvidos.

 

Principalmente a escola, onde a consegue trazer uma educação ambiental e ensinar os pais e as crianças essa prática dentro de casa. Nesse trabalho de conscientização, fazemos parceria com as escolas do próprio bairro. Além da coleta, realizamos workshops lúdicos para educar e conscientizar sobre a sustentabilidade.

 

Qual a perspectiva para o seu ecoponto nos próximos meses?

 

A gente tem o objetivo de coletar 600 quilos de recicláveis por dia e gerar 18 toneladas no mês. Hoje, coletamos de 8 a 9 toneladas no mês. Em contato com os postos de saúde da comunidade, conseguimos fazer um acompanhamento do número de famílias para saber quanto que está sendo gerado de resíduos e o quanto está sendo descartado incorretamente. Assim, sabemos que existe demanda para isso.

 

Trazendo essa conscientização da comunidade, a gente consegue atingir esse número muito rápido. Acredito que no início do segundo semestre de 2022 já conseguiremos atingir essa meta.

 

Ainda este ano uma nova microfranquia da Coletando será aberta no Jd. Lapena, Zona Leste de São Paulo. Quais seriam suas dicas, conselhos e sugestões para a Márcia, empreendedora deste novo negócio?

 

Eu diria para ela acreditar no sonho. É muito trabalho. Muitas vezes, nós mesmos temos que colocar a mão na massa para fazer as coisas acontecerem. Além de acreditar no projeto, é importante ter como parceiros aquelas pessoas que realmente acreditam no seu potencial.

 

Querendo ou não, nós, como recicladores, ainda sofremos muita discriminação, até quando a gente chega para fazer a coleta uniformizado, com o caminhão ou a bicicleta. Então, é preciso ter persistência e resiliência para entender esse mercado.

 

Além disso, apostar no trabalho conjunto. Sozinho a gente não vai a lugar algum. Com os parceiros a gente consegue avançar a cada dia.

 

O Programa HousingPact foca na execução de pilotos que unem grandes empresas e startups a fim de solucionar problemas de moradia para as pessoas das classes C e D, proporcionando uma melhor experiência de habitação da população de baixa renda. Na sua visão de empreendedor, como o Programa pode contribuir para essa experiência de uma maneira mais ampla, para além do projeto da Coletando?

 

O Ibirapuera tem um projeto que está sendo construído junto com outros coletivos que é o Bairro Educador. Esse projeto está trazendo bibliotecas para reforço das escolas, recursos de leitura para poder trazer o conhecimento. Temos a Horta Comunitária também; o projeto disponibiliza um terreno para os próprios moradores cuidarem da horta e, assim, têm acesso a um alimento sem agrotóxico, mais saudável. Tem também o projeto de energia limpa, onde participamos fornecendo garrafas PET que constituem a montagem de uma placa de energia solar através da qual é possível gerar luz para a comunidade sem custo alto de energia.

 

O que quero dizer é que já existem muitas práticas em ação que podem ser potencializadas com iniciativas como a da HousingPact. Eles podem auxiliar-nos a trazer esse recurso, que está dentro da própria casa das pessoas. Temos os coletivos articulando, mas não temos essa plataforma para comunicar e conectar os projetos com as empresas interessadas em apoiar para fazer acontecer. Esse processo facilitou muito a minha atuação com o Coletando e sei que pode funcionar em outras vertentes.