Publicado em:
27/03/2013
Todas nossas experiências ficam marcadas em nosso organismo. Para muitos tenho certeza de que logo veio à mente uma boa lembrança de uma data especial, repleta de sons, cores, sensações e cheiros, ou mesmo um olhar direcionado para uma marca no corpo, proveniente de alguma extravagância de infância.
Tem sido bem discutido que situações experimentadas na idade mais jovem culminam em intervenções na formação das redes neurais dos adultos e em mudanças comportamentais (“Como as experiências agem em crianças e adolescentes”, por Maria Cristina Valzachi). Além disso, uma situação de estresse vivenciada na infância, desencadeada, por exemplo, por uma depressão pós-parto, pode prejudicar o desenvolvimento neurobiológico e psicológico das crianças, resultando em mudanças comportamentais no adulto (“Mamãe feliz – criança saudável”, por Vania Talarico).
Mas como se dá essa incorporação biológica de experiências?
Existem pequenas marcas no DNA de crianças no início de suas vidas que podem resultar em modificações capazes de alterar o fenótipo futuro desses adultos. Essas modificações são causadas por exposições a diversas situações relacionadas tanto a comportamentos sociais como humor da mãe durante a gestação, afeto maternal após o nascimento, estresse, além de status socioeconômico e nutricional no início da vida, e até mesmo o abuso. A provável responsável para incorporação biológica dessas experiências é a epigenética. Apenas lembrando que este nome é dado a intervenções moleculares que ocorrem no genoma e que podem alterar o fenótipo do indivíduo. O mais intrigante é que tais alterações decorrentes da influência do ambiente em estágios iniciais de nossas vidas podem alterar quem seremos como adultos.
Para entendermos a importância da epigenética na biologia, valem algumas palavras do Prof. Moshe Szyf, um dos pioneiros no campo da epigenética: “Não podemos entender a biologia e a medicina sem levarmos em conta o ambiente social, econômico e talvez até o político. Os humanos não podem ser reduzidos a uma única célula, e nós não podemos separar pessoas de seus ambientes.”
Portanto, fatores ambientais e sociais não causam apenas modificações pontuais em nossas células, pele, órgãos ou estado psicológico; muito além disso, deixam marcas que podem gerar diferenças até comportamentais entre os indivíduos. Diversos estudos têm surgido nesta linha discutindo com muito cuidado associações e correlações entre esses parâmetros.
E é por isso que aprofundaremos em nossos próximos textos algo tão complexo onde experiências maternas durante a gestação podem não apenas alterar o comportamento social do futuro bebê, mas também o padrão de respostas de células de seu sistema imune.
Até lá!
Referências:
Entrevista disponível em: http://publications.mcgill.ca/reporter/2009/04/moshe-szyf-james-mcgill-professor-of-pharmacology-and-therapeutics/
Szyf M, Meaney MJ. Epigenetics, behaviour, and health. Allergy Asthma Clin Immunol. 2008 Mar 15;4(1):37-49. Epub 2008 Mar 15.
Maria Cristina Valzachi. Como as experiências agem em crianças e adolescentes. Blog Ciência e Inovação Natura Campus, 20 de setembro de 2012.
Vania Talarico. Mamãe feliz – criança saudável. Blog Ciência e Inovação Natura Campus, 29 de outubro de 2012.